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terça-feira, 13 de julho de 2010

História e Memória - Le Goff e esse blog (ou não)

A quinta parte de Le Goff e a última de Gourhan, em quem ele se baseia por todo o capítulo, são dedicadas a memória que surge em função da comunicação eletrônica.
Le Goff escreve que os computadores permitem um acúmulo nunca visto antes de memória e conhecimento e que a facilidade de acesso é inédita também.
A partir disso, a "memória eletrônica" é a primeira a permitir que a memória individual exista também. É claro que ela sempre existiu, mas se tratavam de figuras importantíssimas que influíram no coletivo.
Agora todos podem entrar para a História. Lembrando que a História é escrita a partir do interesse do historiador, podemos corrigir a frase anterior de minha autora, porque o Le Goff nunca erra e troca-la por: agora, qualquer um pode registrar sua memória na memória coletiva.
Enquanto o coletivismo memorial levou a conseqüências catastróficas, a transmissão eletrônica permite a lembrança e a humanização do individual. Tem gente que afirma que nos tornaremos números "você é só mais um no orkut", por exemplo.
No entanto, esse mais um vai ser diferente do outro um, nem que seja por algumas fotos e uma descrição do "quem sou eu" original.
O sentimento nacionalista morre, eis a chance do sentimento global com a valorização do individual sem estereótipos.que puta conclusão de menininha
E sobre o acúmulo de memória em pequenos aparelhos eu comecei a lembrar dos holokrons do Star Wars (há! Eu tinha que falar disso). Onde pequena caixas trazem registros de povos e populações inteiras e eles se lançam em combate para te-las.
Le Goff é incentivador da informação digital e, por tabela, da popularização do conhecimento, que nunca podemos esquecer que é o objetivo desse blog: popularização e democratização do conhecimento histórico.

História e Memória - Memória Nacional

Le Goff foca na construção das identidades nacionais quando chegamos a parte da memória impressa. de longe a mais legal
Jornais. Informação massificada. Opinião pública. Mobilização. Revolução. te lembra alguma coisa...? Depois da Idade Média... 1789...
Uma coisa leva a outra. A memória coletiva no pós-Idade Média é exposta em museus, calendários festivos nacionais, laicização de territórios, etc...
A escolha de dias festivos, exprime uma idéia de identidade nacional desejada, Le Goff ilustra com o exemplo francês: quais fatos da Revolução Francesa deveriam ser lembrados?
"A história é escrita pelos vencedores." Não seria esse um efeito colateral da manipulação da memória coletiva?
Meu exemplo nacional preferido: o livro de Narloch. O guia politicamente incorreto do Brasil tenta provocar a opinião pública revelando fatos encobertos pela leitura de nossa memória coletiva nacional idealizada.
O auge da memória coletiva foram o nazismo e o fascismo. Idealização de feitos do passado e adoração aos líderes políticos. As conseqüências desse tipo de uso da memória coletiva são catastróficas. Países que foram traumatizados com esse tipo de linguagem totalitária reconhecem isso (aí podemos incluir também o Regime de Terror no pós-Revolução Francesa).
O que me assusta, no entanto, são nações que tiveram a mesma forma de pensar e não identificaram ou se traumatizaram com isso.
"A história é escrita pelos vencedores".
Eis que o grande vitorioso dos conflitos contra regimes totalitaristas também tem um cunho nacionalista.
Sim, estamos falando dos EUA. Sua visão para o país é de perfeição. Alienação total.
As aulas de American History são, de fato, um discurso patriota decorado sobre os feitos heróicos dos presidentes estadunidenses. porque é um bsurdo chamar de americano
Palavras de quem freqüentou uma High School.
O que é Guatanamo se não um campo de concentração?
Não me venham com o papo "A guerra do Vietnam..." A guerra do Vietnam não foi em território estadunidense como as guerra de Hitler, Mussolini e o Regime do Terror foram em territórios europeus.
A mídia fez a parte dela na guerra do Vietnam, a dor fez a parte dela e muito mais na segunda guerra mundial.
Então, um país de cunho nacionalista que se esconde sob o nome de liberdade e democracia prevê sua posse de armas nucleares como a garantia da paz mundial no sistema de Direito Internacional.
Mussolini e Hitler foram adorados por um certo tempo. Obama também o é e Lula quer ser. fazer filminho foi uma puta falta de sacanagem.
E todos os outros presidentes estadunidense também são. Bush talvez não, porém, ele é exceção (e outro acho que Nixon, da guerra do Vietnam...) por causa de uma mídia crítica e opiniões internacionais fortes.
Esse é o caminho da salvação estadunidense não Canada, não vou ignorar sua existência: uma mídia crítica e uma comunidade internacional que não abaixa a cabeça. Aliás, não tem mais o porquê abaixar a cabeça mesmo, só a gente não foi afetado pela crise...

História e Memória - "Fazei isto em memória de mim*" (e tocam o sininhos...)


Com o advento da escrita, estudos filológicos são apresentados por Le Goff para com os conceitos de memória desde os gregos até a Idade Moderna.
Le Goff medievalista, caracteriza como memória escrita, a cultura medieval ocidental.
Há uma idéia explorada sobre a mnemotécnica e seus avanços através do tempo. A mnemotécnica são técnicas e estudos sobre e como melhorar a memória que sempre foi sinal de inteligência. A idéia de capacidade intelectual sempre foi vinculada, desde a Antiguidade, com a capacidade de memorizar do individuo.
Pitágoras, afirma Le Goff, era tão inteligente que lembrava até da sua vida passada eu quero puxar cadeira de mestrado só pra ficar sabendo dessa história.
A mnemotécnica estuda, portanto, as raízes da memória no ser humano e como maximizá-la. A mnemotécnica tem um pé no ocultismo, porque atribuíam origens místicas a memória. Alguns teóricos citados por Le Goff foram perseguidos por seus estudos.
No entanto, a memória coletiva se apega também a religião católica. Le Goff dá alguns exemplos bíblicos para acreditarmos que o ensino católico é a preservação da memória e o culto cristão é comemoração. Portanto, os hereges e os católicos se enlaçaram tanto quanto a História e a Memória.
A idéia da mnemotécnica como capacidade intelectual nunca foi totalmente exterminada até hoje temos apostilas para melhorar a memória, etc... mas ela saiu do foco com o advento da massificação da escrita, até então, quase-monopólio da Igreja.
Com o advento da imprensa, o saber passa a ser impresso e presente. É só consultar um livro, e pronto, lá esta o que precisas.
Artigos científicos são impressos e o leitor pode compartilhar descobertas contemporâneas. Científicamente um avanço enorme. Até então, a linha de divisão entre memória escrita e oral era muito sutil.
E a imprensa traz muito mais do que folhas para a memória coletiva.

*= frase tirada da missa pra quem nunca assistiu uma ou não se lembra...

segunda-feira, 12 de julho de 2010

História e Memória - inscrevendo a História

Com o avanço da comunicação simbólica, é perceptível no maior esquema o ovo e a galinha uma mudança na função da memória coletiva.
O período da transmissão por inscrições é a História Antiga (Egito, Pérsia, Roma, Grécia...). Essa transmissão através da inscrição (de estelas, monumentos, um principio de escrita) vem para registrar eventos históricos. Eventos históricos, segundo Paul Veyne, seriam fatos que se destacam sobre uma uniformidade.
A memória coletiva é marcada com inscrições, provocando mudanças e registros, o que indica que a História Política e a mobilização social começaram a se complexar.
Lembra do Sennet?
Então, naquele mesmo texto do Flesh and Stone ele discute a importância da imagem no mundo romano, como a idéia do culto ao imperador, e a idéia da perpetuação de seus feitos em pedra, no comando de um império cuja riqueza se mede em carne, em numerosos escravos.
A idéia dos monumentos de Roma está ligada diretamente com personalidades, como o Fórum de Trajano, o novo Pantheon que Adriano manda erigir para provar seu valor, o desperdício de Nero em sua nova morada e a construção que marca o fim do império romano: o maior complexo de termas já feito, construído a mando de Caracala.
Le Goff foca nesse tipo de ação e não nas personalidades em si. Aliás, efeitos e causas, as inscrições, por exemplo, marcavam as comemorações e lembravam o que o Estado queria que fosse lembrado e comemorado.
O inicio da escrita, a inscrição, aparece para registrar fatos fora do cotidiano de uma civilização.
Vale ressaltar que esse tipo de documento oficial é e deve ser sempre explorada e re-explorada e talvez além de aumentar o número de tipos de fontes e incentivar historiadores a olharem com outros olhos para os vestígios do passado, é necessária uma releitura histórica dessas estelas, obeliscos, aquedutos, arenas, etc... A História é feita no presente, e muda como o próprio presente.
Um exemplo pertinente é a crença do historiador Serge Gruzinski, em A Colonização do Imaginário, de que o significado da epigrafia asteca não está apenas nas formas e seqüências que suas representação pictográficas estão dispostas e que há muito significado nas cores utilizadas, dando outro olhar a fontes já tão exploradas e mesmo assim trazendo novas informações.
E viva a História Nova!

História e Memória - A memória que não embarcou no navio negreiro

POSTAGEM EM DIÁLOGO.

Le Goff aborda a memória coletiva transmitida oralmente apenas nas sociedades sem escrita, ele também a denomina memória étnica.
A memória coletiva e sua transmissão são fatores de unificação cultural do grupo. A mitologia é um forte fator na memória oral.
O autor utiliza como exemplo o costume de batizar indivíduos com o nome de ancestrais em povos sem escrita no Congo, como uma forma de preservar a memória coletiva.
Essa prática não se restringe ao Congo, mas também é possível de se ver em outras tribos e reinos africanos.
Há, no Brasil, uma discussão sobre os ritos do Candomblé que envolve culto aos orixás¹ e aos ancestrais². No entanto, não se tem certeza do que seja um ou outro, e alguns ancestrais foram confundidos com orixás.
Nossa problemática histórica aqui não é distinguir um do outro e sim, sensibilizar a perda desse costume e o golpe que isso trouxe a memória coletiva desses grupos.
Se a tradição tivesse sido mantida quando esses grupos foram trazidos como escravos para o Brasil, até hoje a diferença estaria clara entre orixás e ancestrais.
Poderíamos supor que o choque cultural e a condição de escravos em uma sociedade que possuía a escrita foram condições para a repudio do velho costume do batismo com nomes de ancestrais, no entanto, se alguém for estudar as conseqüências da memória coletiva dos escravos e sua influência no Candomblé³ e em outros cultos e religiões afro-descendentes não poderia esquecer da importância do mito de origem na memória étnica e, portanto, da religião. Uma das possibilidades para o fato teria sido a inclusão do pensamento cristão nesse povo, com sua visão linear do tempo.
Mas, como o próprio Le Goff, devemos lembrar da figura destacada por Leroi-Gourhan(te lembra alguém?): o responsável pela memória coletiva: o pajé, o aedo, a sacerdote, o ancião... Nas sociedades sem escrita difundida. chama de Gohan que é bem mais fácil
Então, adicionemos em nossa problemática o fato de que os anciãos não eram trazidos para o Brasil como escravos (uma vez que o trabalho a que estariam destinados exigiria rigor, que também era exigido na viagem) e que seriam os portadores da memória étnica daqueles povos.
Se existe memória existe também função para essa memória e Le Goff define no período da Pré-História à Antiguidade as funções da memória coletiva como: a genealogia das famílias importantes (afirmando seu prestígio e descendência divina), o mito de origem (que é o símbolo de coesão coletiva) e o saber técnico religioso (a figura do preto-velho africano que carrega o conhecimento mágico e místico).

1= Divindades da religião, anacronismo didático: valeriam como os deuses gregos.
2= Ritos mediúnicos que envolvem sacrifícios e oferendas aos ancestrais familiares. O culto Egungun, por exemplo.
3= Lembrando que o Candomblé é uma religião formada pelos escravos em si, e não uma religião africana por natureza. Ela é uma religião afro-descendente.

História e Memória

História e Memória é um livro escrito por Jacques Le Goff, especialista em história biográfica, Idade Média e em antropologia histórica e medieval, e faz uma análise sobre a memória coletiva através dos tempos.

Le Goff (1924 - ) é a terceira geração da Escola dos Annales, fundada por March Bloch, portanto, ele é a figura máxima viva da História Nova.

Antes de mais nada, é necessário caracterizar o que é memória coletiva que, de uma maneira simples, é a memória que um grupo possui sobre si e sua história. Seus ritos, seu passados, seus heróis, suas transformações.

Portanto, História e Memória são dois temas que se envolvem e se diferenciam. A memória que Le Goff estuda é por ele abordada em sentido de leque: do micro, individual e biológico, ao macro, coletivo e histórico.

O foco do autor é o coletivo-social, no entanto, ele levanta a importância da memória individual: a física (como os efeitos na formação de determinado discurso histórico) e metafórico (em uma comparação com a memória coletiva e suas característica de constante re-interpretação).

Essa comparação metafórica merece uma explicação mais aprofundada: nossa memória individual, toda vez que é buscada é re-lida e re-interpretada, Le Goff acredita que assim também o é com a memória coletiva: toda vez que a população atual busca na memória coletiva algum fato, faz uma releitura do fato, uma interpretação diferente das anteriores, contemporâneas com o fato ou mesmo posteriores a ele.

Para aplicar o caráter didático que o texto tem, vou dividir a resenha como Le Goff divide seu texto, sob o seguinte esquema:

è Introdução (este post)

è A memória oral nos povos sem escrita

è A memória inscrita

è A memória escrita

è A memória impressa

è A memória eletrônica

Eu vou seguir o mesmo esquema, em forma de resenha, explorando o tema mais do que falando do texto em si...

Enjoy it.

domingo, 4 de julho de 2010

Olhar e acreditar, ver e obedecer

Flesh and Stone. Richard Sennet. (Carne e Pedra na versão brasileira)
Professor de Sociologia, iniciou seus estudos em História quando concluiu seu PhD em Harvard.
Em Flesh and Stone, ele relaciona o corpo humano no espaço urbano, mas eu só vou escrever um pouquinho sobre o capítulo em que Sennet aborda a Roma Antiga (ele não lembra o Elton John?).
Sennet expõe a importância da imagem para o povo romano. Olhar e acreditar. Ver e obedecer.(talvez não com essas palavras...).
Quando a gente vai estudar o tempo de Júlio César e o conseqüente império romano, a questão mais explorada é a importância da engenharia romana. (lembrando, Império Romano, não república)
Julius César, o marido de todas as mulheres e esposa de todos os homens, inicia o brilho de sua carreira militar quando cruza o Danúbio construindo uma ponte até então nunca vista, para cruzar o território com suas tropas, descer a porrada nos germânicos, voltar e destruir aquela magnifica construção, simbolizando que César pode fazer o que nenhum outro homem pode e faze-lo quando desejar. A ponte de César acompanha uma imagem romana de poder total.
E, depois da morte de César, Otávio empreende sua conquista pela herança e assume o título de Augusto. O império começa. (soou um pouco Darth Vader, néh?)
Ao longo dos séculos, os imperadores vão indo e vindo, e uma empreitada pela segurança no poder é expressa com tentativas de construções mais e mais magníficas. O imperador anterior é um ego fantasma que deve ser superado para se segurar no poder com o apoio do povo.
O fórum de Trajano, O Pathernon de Adriano, As termas de Caracala.
O Coliseu, erguido acima do Domus Aurea de Nero, construído a mando de seus sucessores, para que a imagem de Nero fosse esquecida pelo povo romano, mostra que a disputa engenhosa era consciente e exemplifica a idéia de Sennet.
Para que a população acreditasse naquele ser divinizado fielmente, ou para que ele tivesse o próprio ego posto a prova, os monumentos eram erguidos e fincados na vida romana. Sua memória e opinião coletivas eram drásticamente afetadas por essas imagens.
"O romano acreditaria e obedeceria o que visse."
Um exemplo filológico disso é que, segundo Paul Veyne, para os romanos, o céu noturno (que para nós é um infinito) era uma manto que cobria a terra.
Essa relação olhar e acreditar era a base da popularidade romana, e um dos maiores populistas de todos os tempos (olha, um anacronismo), Júlio César, talvez só tivesse conseguido centralizar o poder em suas mãos porque percebeu isso e conseguiu utilizar-se da engenharia para benefício próprio somando a sua capacidade diplomática e persuasiva fantásticas.