Mostrando postagens com marcador Jacques LE GOFF. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jacques LE GOFF. Mostrar todas as postagens

sábado, 28 de agosto de 2010

"Invasão" Magiar

Le Goff disserta sobre um certo padrão nas invasões na Europa da Idade Média: após um período de saque, há uma instalação futuramente comercial e política.
Os húngaros não fogem da regra. Similares aos hunos, os húngaros eram um exército que vivia em cima de cavalos. Povo guerreiro, os magiares se instalam no século VII no império dos Khazares – turcos comerciantes convertidos ao judaísmo.
Foram, no século IX, empurrados para oeste até as terras que, antes do ataque carolíngio, pertenciam a um povo denominado Avaro.
Os ataques (saques) húngaros ao sacro-império romano germânico iniciam-se em 899.
Um fato bacana também é a semelhança imaginada pelos mais ocidentalizados dos húngaros com os turcos na época das primeiras invasões. A primeira imagem representa o Cerco de Eger (1552), onde 80.000 soldados turcos atacaram 2.000 húngaros. Vitória húngara. É, nem tão iguais assim...

Os húngaros, voltando ao tempo da chegada, não atacam um império unificado. O império já pode,historicamente, ser dividido entre Germânia e França. A figura de unificação imperial era Carlos, o Gordo, que morre em 888. Em 926 eles atacam Verdun e até Roma eles vão. Os saques húngaros são detidos por Otão da Germânia em 955, na Batalha de Lechfeld.
Após esse bloqueio nos saques húngaros eles se sedentarizam e, com a conversão do recém-nomeado Príncipe Estevão, a Hungria nasce como reino no ano 1000. Com direito a figura dele ali do lado e tudo.
Vale destacar o fato de Estevão I ter virado o santo patrono dos reis.
Batalha de Lechfeld

O Sacro Império Medievo

Trevas. Fragilidade. Inquisição. Medo.
Há certos cenários que povoam nosso imaginário acerca do mundo medieval.
A questão feudal, como se de repente, o império romano ruiu e do dia para a noite o cidadão era servo e seu senhor agora era um cavaleiro e não mais um imperador.
No entanto, o único jeito da Idade Média ser a Idade das Trevas é não estudando-a.
Para a gente estudar melhor, Le Goff escreve um texto de simples compreensão chamado a Civilização do Ocidente Medieval, em forma de prosa sem um rigor que se ele não fosse O LE GOFF sem dúvida seria criticado bastante.
Existe uma idéia pouco ensinada nas escolas da re-significação do império. Durante a idade média, ao menos até Otão III, houve uma busca de ressurgimento do império romano.
Após a queda do império romano houve sim uma descentralização. Tal descentralização foi substituída pelo reinado dos francos com a dinastia carolíngia (751-987).
Carlos Magno (747-814), descendente hierárquico do convertido ao catolicismo em 496, Clóvis, recebeu o título de imperador dos romanos pelo papa em 800.
Carlos expande esse território para a Germânia (que seria a Francia oriental), já possuía a maior parte de França atual, um pouco da península ibérica e conquistou a Itália.
Carlos Magno foi proclamado imperador por três motivos:
1 - O papa necessitava de um protetor.
2 - O papa necessitava de alguém que legitimasse os Estados Pontifícios (isto é, do pontífice, do papa).
3 - O papa queria estender seu poder até a igreja oriental e acabar com a questão iconoplasta que depois que eu pesquisa mais, vou escrever aqui alguma coisa sobre.
Isso mostra que o papa queria e incentivava Magno a atacar o império romano do oriente. Carlos assim o fez, no entanto, apenas para que seu título de imperador fosse reconhecido e que o jeito que ele denominava o imperador bizantino permanecesse (isto é basileus, o mesmo modo que aparece na Odisséia para pequenos reis, lembrando nosso post sobre o anacronismo homérico).
O título de imperador lhe foi reconhecido por Bizâncio em 1812.

domingo, 1 de agosto de 2010

História, não somente pela História - clareando a peste negra


Enquanto a discussão sobre a função da História tinha o sono de muita gente, uma galera que escreve livros e mais livros sobre "O que é História?" "Para que serve História?" "O que faremos com a História?" blá blá blá que também são interessantes e absolutamente importantes, vou por um outro caminho: a versatilidade de um bom historiador hoje em dia.
Se a História procura juro por Deus que eu não quero aprofundar na questão uma verdade sobre ações humanas em determinada época, tem de considerar a realidade da mesma época. E a realidade não representa apenas o panorama político, uma vez que a política e todas as ações políticas nada mais são que conseqüências do que se passa com a sociedade humana da época. História = só história política é concepção velha e passada.
E para observar uma sociedade temos que observar também: a psicologia, a medicina, a filosofia, a farmacologia, a engenharia, etc da época.
A História Nova busca muito isso.
A escola metódica se baseava nos documentos oficiais, isso lhe dava um limite X. Aumentaram as fontes: para fontes orais, com o apoio da antropologia, conferindo um limite muito maior. Fontes visuais, maior ainda, com o apoio das artes visuais. Cinematográficas com o apoio da psicologia. Os periódicos com ajuda do jornalismo e da própria psicologia. Os laudos e as grandes epidemias, com a medicina.
Vide a nova interpretação da peste negra da Idade Média: outrora era resultado da má alimentação, afetando principalmente a população pobre. Agora, com o apoio da medicina, descobriu-se que a peste negra nada tem a ver com a alimentação do individuo, e sim com o contato com os infectados dirigindo seus estudos a crer em um recuo populacional.
Um exodo rural ao contrário. Uma mobilização populacional na Europa medieval não havia sido cogitada até então (exceto, é claro, as invasões "bárbaras") como constante e seus indícios demográficos foram re-interpretados.
Uma vez que o exílio medieval em torno das muralhas provocou o que talvez foi a primeira guerra biológica. Reinos rivais jogavam corpos de falecidos pela peste nos rios que abasteciam as rivais, isso é claro na Baixa Idade Média, quando a peste pega pra valer.
E a história se refaz e renasce. Um historiador não pode mais ser mais do mesmo, até a tão explorada Idade média é reescrita com o apoio da psicologia pra não chutar o balde e dizer marketing com obras pouco populares até agora como "Idade média explicada para meus filhos" onde o grande chefão Le Goff analisa o imaginário medieval relembrando os mitos de princesas, dragões, bruxas e paladinos que nós esquecemos ao juntar a imagem de idade média com a da pura e simplesmente imagem católica.
E viva a audaciosa História Nova... e seu historiador mil e uma utilidades

terça-feira, 13 de julho de 2010

História e Memória - Le Goff e esse blog (ou não)

A quinta parte de Le Goff e a última de Gourhan, em quem ele se baseia por todo o capítulo, são dedicadas a memória que surge em função da comunicação eletrônica.
Le Goff escreve que os computadores permitem um acúmulo nunca visto antes de memória e conhecimento e que a facilidade de acesso é inédita também.
A partir disso, a "memória eletrônica" é a primeira a permitir que a memória individual exista também. É claro que ela sempre existiu, mas se tratavam de figuras importantíssimas que influíram no coletivo.
Agora todos podem entrar para a História. Lembrando que a História é escrita a partir do interesse do historiador, podemos corrigir a frase anterior de minha autora, porque o Le Goff nunca erra e troca-la por: agora, qualquer um pode registrar sua memória na memória coletiva.
Enquanto o coletivismo memorial levou a conseqüências catastróficas, a transmissão eletrônica permite a lembrança e a humanização do individual. Tem gente que afirma que nos tornaremos números "você é só mais um no orkut", por exemplo.
No entanto, esse mais um vai ser diferente do outro um, nem que seja por algumas fotos e uma descrição do "quem sou eu" original.
O sentimento nacionalista morre, eis a chance do sentimento global com a valorização do individual sem estereótipos.que puta conclusão de menininha
E sobre o acúmulo de memória em pequenos aparelhos eu comecei a lembrar dos holokrons do Star Wars (há! Eu tinha que falar disso). Onde pequena caixas trazem registros de povos e populações inteiras e eles se lançam em combate para te-las.
Le Goff é incentivador da informação digital e, por tabela, da popularização do conhecimento, que nunca podemos esquecer que é o objetivo desse blog: popularização e democratização do conhecimento histórico.

História e Memória - Memória Nacional

Le Goff foca na construção das identidades nacionais quando chegamos a parte da memória impressa. de longe a mais legal
Jornais. Informação massificada. Opinião pública. Mobilização. Revolução. te lembra alguma coisa...? Depois da Idade Média... 1789...
Uma coisa leva a outra. A memória coletiva no pós-Idade Média é exposta em museus, calendários festivos nacionais, laicização de territórios, etc...
A escolha de dias festivos, exprime uma idéia de identidade nacional desejada, Le Goff ilustra com o exemplo francês: quais fatos da Revolução Francesa deveriam ser lembrados?
"A história é escrita pelos vencedores." Não seria esse um efeito colateral da manipulação da memória coletiva?
Meu exemplo nacional preferido: o livro de Narloch. O guia politicamente incorreto do Brasil tenta provocar a opinião pública revelando fatos encobertos pela leitura de nossa memória coletiva nacional idealizada.
O auge da memória coletiva foram o nazismo e o fascismo. Idealização de feitos do passado e adoração aos líderes políticos. As conseqüências desse tipo de uso da memória coletiva são catastróficas. Países que foram traumatizados com esse tipo de linguagem totalitária reconhecem isso (aí podemos incluir também o Regime de Terror no pós-Revolução Francesa).
O que me assusta, no entanto, são nações que tiveram a mesma forma de pensar e não identificaram ou se traumatizaram com isso.
"A história é escrita pelos vencedores".
Eis que o grande vitorioso dos conflitos contra regimes totalitaristas também tem um cunho nacionalista.
Sim, estamos falando dos EUA. Sua visão para o país é de perfeição. Alienação total.
As aulas de American History são, de fato, um discurso patriota decorado sobre os feitos heróicos dos presidentes estadunidenses. porque é um bsurdo chamar de americano
Palavras de quem freqüentou uma High School.
O que é Guatanamo se não um campo de concentração?
Não me venham com o papo "A guerra do Vietnam..." A guerra do Vietnam não foi em território estadunidense como as guerra de Hitler, Mussolini e o Regime do Terror foram em territórios europeus.
A mídia fez a parte dela na guerra do Vietnam, a dor fez a parte dela e muito mais na segunda guerra mundial.
Então, um país de cunho nacionalista que se esconde sob o nome de liberdade e democracia prevê sua posse de armas nucleares como a garantia da paz mundial no sistema de Direito Internacional.
Mussolini e Hitler foram adorados por um certo tempo. Obama também o é e Lula quer ser. fazer filminho foi uma puta falta de sacanagem.
E todos os outros presidentes estadunidense também são. Bush talvez não, porém, ele é exceção (e outro acho que Nixon, da guerra do Vietnam...) por causa de uma mídia crítica e opiniões internacionais fortes.
Esse é o caminho da salvação estadunidense não Canada, não vou ignorar sua existência: uma mídia crítica e uma comunidade internacional que não abaixa a cabeça. Aliás, não tem mais o porquê abaixar a cabeça mesmo, só a gente não foi afetado pela crise...

História e Memória - "Fazei isto em memória de mim*" (e tocam o sininhos...)


Com o advento da escrita, estudos filológicos são apresentados por Le Goff para com os conceitos de memória desde os gregos até a Idade Moderna.
Le Goff medievalista, caracteriza como memória escrita, a cultura medieval ocidental.
Há uma idéia explorada sobre a mnemotécnica e seus avanços através do tempo. A mnemotécnica são técnicas e estudos sobre e como melhorar a memória que sempre foi sinal de inteligência. A idéia de capacidade intelectual sempre foi vinculada, desde a Antiguidade, com a capacidade de memorizar do individuo.
Pitágoras, afirma Le Goff, era tão inteligente que lembrava até da sua vida passada eu quero puxar cadeira de mestrado só pra ficar sabendo dessa história.
A mnemotécnica estuda, portanto, as raízes da memória no ser humano e como maximizá-la. A mnemotécnica tem um pé no ocultismo, porque atribuíam origens místicas a memória. Alguns teóricos citados por Le Goff foram perseguidos por seus estudos.
No entanto, a memória coletiva se apega também a religião católica. Le Goff dá alguns exemplos bíblicos para acreditarmos que o ensino católico é a preservação da memória e o culto cristão é comemoração. Portanto, os hereges e os católicos se enlaçaram tanto quanto a História e a Memória.
A idéia da mnemotécnica como capacidade intelectual nunca foi totalmente exterminada até hoje temos apostilas para melhorar a memória, etc... mas ela saiu do foco com o advento da massificação da escrita, até então, quase-monopólio da Igreja.
Com o advento da imprensa, o saber passa a ser impresso e presente. É só consultar um livro, e pronto, lá esta o que precisas.
Artigos científicos são impressos e o leitor pode compartilhar descobertas contemporâneas. Científicamente um avanço enorme. Até então, a linha de divisão entre memória escrita e oral era muito sutil.
E a imprensa traz muito mais do que folhas para a memória coletiva.

*= frase tirada da missa pra quem nunca assistiu uma ou não se lembra...

segunda-feira, 12 de julho de 2010

História e Memória - A memória que não embarcou no navio negreiro

POSTAGEM EM DIÁLOGO.

Le Goff aborda a memória coletiva transmitida oralmente apenas nas sociedades sem escrita, ele também a denomina memória étnica.
A memória coletiva e sua transmissão são fatores de unificação cultural do grupo. A mitologia é um forte fator na memória oral.
O autor utiliza como exemplo o costume de batizar indivíduos com o nome de ancestrais em povos sem escrita no Congo, como uma forma de preservar a memória coletiva.
Essa prática não se restringe ao Congo, mas também é possível de se ver em outras tribos e reinos africanos.
Há, no Brasil, uma discussão sobre os ritos do Candomblé que envolve culto aos orixás¹ e aos ancestrais². No entanto, não se tem certeza do que seja um ou outro, e alguns ancestrais foram confundidos com orixás.
Nossa problemática histórica aqui não é distinguir um do outro e sim, sensibilizar a perda desse costume e o golpe que isso trouxe a memória coletiva desses grupos.
Se a tradição tivesse sido mantida quando esses grupos foram trazidos como escravos para o Brasil, até hoje a diferença estaria clara entre orixás e ancestrais.
Poderíamos supor que o choque cultural e a condição de escravos em uma sociedade que possuía a escrita foram condições para a repudio do velho costume do batismo com nomes de ancestrais, no entanto, se alguém for estudar as conseqüências da memória coletiva dos escravos e sua influência no Candomblé³ e em outros cultos e religiões afro-descendentes não poderia esquecer da importância do mito de origem na memória étnica e, portanto, da religião. Uma das possibilidades para o fato teria sido a inclusão do pensamento cristão nesse povo, com sua visão linear do tempo.
Mas, como o próprio Le Goff, devemos lembrar da figura destacada por Leroi-Gourhan(te lembra alguém?): o responsável pela memória coletiva: o pajé, o aedo, a sacerdote, o ancião... Nas sociedades sem escrita difundida. chama de Gohan que é bem mais fácil
Então, adicionemos em nossa problemática o fato de que os anciãos não eram trazidos para o Brasil como escravos (uma vez que o trabalho a que estariam destinados exigiria rigor, que também era exigido na viagem) e que seriam os portadores da memória étnica daqueles povos.
Se existe memória existe também função para essa memória e Le Goff define no período da Pré-História à Antiguidade as funções da memória coletiva como: a genealogia das famílias importantes (afirmando seu prestígio e descendência divina), o mito de origem (que é o símbolo de coesão coletiva) e o saber técnico religioso (a figura do preto-velho africano que carrega o conhecimento mágico e místico).

1= Divindades da religião, anacronismo didático: valeriam como os deuses gregos.
2= Ritos mediúnicos que envolvem sacrifícios e oferendas aos ancestrais familiares. O culto Egungun, por exemplo.
3= Lembrando que o Candomblé é uma religião formada pelos escravos em si, e não uma religião africana por natureza. Ela é uma religião afro-descendente.

História e Memória

História e Memória é um livro escrito por Jacques Le Goff, especialista em história biográfica, Idade Média e em antropologia histórica e medieval, e faz uma análise sobre a memória coletiva através dos tempos.

Le Goff (1924 - ) é a terceira geração da Escola dos Annales, fundada por March Bloch, portanto, ele é a figura máxima viva da História Nova.

Antes de mais nada, é necessário caracterizar o que é memória coletiva que, de uma maneira simples, é a memória que um grupo possui sobre si e sua história. Seus ritos, seu passados, seus heróis, suas transformações.

Portanto, História e Memória são dois temas que se envolvem e se diferenciam. A memória que Le Goff estuda é por ele abordada em sentido de leque: do micro, individual e biológico, ao macro, coletivo e histórico.

O foco do autor é o coletivo-social, no entanto, ele levanta a importância da memória individual: a física (como os efeitos na formação de determinado discurso histórico) e metafórico (em uma comparação com a memória coletiva e suas característica de constante re-interpretação).

Essa comparação metafórica merece uma explicação mais aprofundada: nossa memória individual, toda vez que é buscada é re-lida e re-interpretada, Le Goff acredita que assim também o é com a memória coletiva: toda vez que a população atual busca na memória coletiva algum fato, faz uma releitura do fato, uma interpretação diferente das anteriores, contemporâneas com o fato ou mesmo posteriores a ele.

Para aplicar o caráter didático que o texto tem, vou dividir a resenha como Le Goff divide seu texto, sob o seguinte esquema:

è Introdução (este post)

è A memória oral nos povos sem escrita

è A memória inscrita

è A memória escrita

è A memória impressa

è A memória eletrônica

Eu vou seguir o mesmo esquema, em forma de resenha, explorando o tema mais do que falando do texto em si...

Enjoy it.