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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Tucídides, o historiador general

A guerra do Peloponeso (431 a 404 a. C.) foi um confronto pós-guerras médicas (gregos x persas) que teria ocorrido entre as duas maiores potências gregas: Atenas e Esparta.
Não se iluda com a visão intelectual-filosófica que Atenas transmite no imaginário atual. Eles tinham exército, ouro e aliados. No entanto, quem leva a melhor na guerra entre os gregos são os espartanos, esse mesmo povo que teria lutado a Batalha de Termópilas décadas e décadas antes. sim, sim a do filme
Termópilas foi e é o símbolo de heroísmo, coragem e disciplina da civilização ocidental: 300 espartanos contra 100 ou 200 mil persas, infligindo perdas terríveis no exército persa. Com o mito Termópilas, os persas são reduzidos a covardes e fracos, e os espartanos são considerados corajosos saiajins.
Mas Tucídides foi o cara que escreveu a Guerra do Peloponeso, que ocorreu muito tempo depois de Termópilas. Esse texto é uma hipótese do que teria levado ele a escrever a história de uma guerra que perdeu.
Com o efeito mito que a batalha de Termópilas deixa no imaginário em mente, podemos deduzir o que levou um general ateniense, que lutou e perdeu a guerra, a registra-la. Tucídides é seco em seu texto. Seu texto possui um apego ao factual que legitima sua versão da guerra do Peloponeso perante qualquer outra versão.
Ele não conta a Guerra do Peloponeso, ele a limita. "A guerra foi só isto". Ele, por exemplo, inicia seu texto descrevendo os dois exércitos. Impossibilita os poetas a cantarem que dez espartanos mataram 1.000 atenienses.
Tucídides limita a vitória espartana ao plano físico, e ganha na batalha da memória. Eis o motivo que aponto para Tucídides ter contado a guerra que perdeu: ele a limitou como uma vitória comum como qualquer outra, e não um evento épico e humilhante.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Oi, reparou no vaso? Bjos

Então, se você é um bom observador, com certeza viu que muitas postagens sobre História Antiga tem vasos como ilustrações.
O vaso ele é o maior símbolo da cultura grega antiga. Além disso, base comercial grega eram os vasos.
Não haviam talheres, caixas, ou copos. Haviam vasos. De bronze, argila, cerâmica, etc. Vasos, vasos, vasos.
E são nesses vasos que podemos estudar a arte grega, sua mitologia não hesiódica e, tão importante quanto, as influências culturais gregas espalhadas por todo o mediterrâneo.
Tem uma doutora da UNICAMP que recém fez a tese em que mostrava como a resistência à cultura grega se deu na Magna Grécia (nossa amada Sícilia) através... Dos vasos. ah como eu queria me lembrar o nome dela!
Em relação ao termo "mitologia não hesiódica" que eu nunca tinha visto em lugar qualquer e me perdoem pela criação grotesca, me refiro ao que Hesíodo não conta em sua teogonia. Se ele contou uma história, com certeza realizou, arbitrariamente ou não, uma seleção de divindades apresentáveis e versões para suas histórias foram selecionadas. Portanto, prender seus conhecimentos mitológicos gregos na teogonia, é submeter-se a uma versão formada por uma arbitrariedade de origem desconhecida.
Fora que, voltando aos vasos meninos e meninas, vocês não vão saber todas as histórinhas sobre Zeus na faculdade, mas com certeza vão escutar a palavra vaso um zilhão de vezes.
Os famosos comportamentos sexuais gregos podem ser admirados em alguns vasos que se encontram escondidos em museus europeus. cara, talvez eu tenha lido isso no "Amor, desejo e poder na Antiguidade", mas não tenho certeza.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O tempo dos heróis

A linha do tempo não nasceu do nada. A linha do tempo foi uma construção para uma História que teria início (Gênese) e fim (Apocalipse), porém, antes que essa idéia fosse implantada, o que dominava geral era o Tempo Cosmogônico, a visão/experiência do tempo pelos gregos e outras culturas que seriam, pela Igreja católica, denominadas pagãs futuramente.
O símbolo do tempo na cultura grega é a Roda da Fortuna, a existência do individuo representada por: nascer, crescer, reproduzir, morrer, reencarnar (nascer), crescer, morrer, reencarnar... Logo, entre as reencarnações, o individuo esquecia de sua vida (tomando água do rio do Hades, Lethes) e, ao mesmo tempo, era esquecido.
Como assim? O tempo, quando se repete mudando apenas detalhes, também tem um caráter destrutivo. O individuo é esquecido tanto quanto esquece. O tempo passa e ele já era.
Paralelo a isso, Hesíodo escreve a origem do Homem em sua obra: "O trabalho e os dias" e nela existem quatro raças de homens: de ouro, prata, de bronze e de ferro (a qual o poeta pertence). Elas não possuem um caráter evolutivo como a primeira vista pode aparecer, elas se diferenciam pelos conceitos de Hybris e Díke, mas percebe-se uma substituição entre as raças que apaga a anterior da memória. No entanto, devido ao tempo cosmogônico, Hesíodo afirma que é infeliz na raça de ferro e gostaria de ter nascido "antes ou depois" desse tempo.
Todas essas raças são de homens que viveram, morreram e foram esquecidos, no entanto, há, na mitologia homens e semideuses que superam moral ou fisicamente seus irmãos. Seus nomes ecoam pela eternidade: Aquiles. Herácles. Heitor. Etc, etc...
Eles não são inclusos em qualquer uma das raças, que o tempo destrói, eles não tomam água do Letes e reencarnam. Para eles, há uma ilha no meio do rio místico para que seus permaneçam vivos na memória. Hesíodo anuncia que eles não pertencem a raça alguma, exceto, a raça dos Heróis.
Não é o sonho de todo grande Homem entrar para a História? Pois bem, essa era a maneira mais gloriosa de faze-lo.

domingo, 1 de agosto de 2010

Aristóteles e a História

Aristóteles diz, na lata, que a poesia é mais filosófica e séria do que a História em seu livro Poética, capítulo nono.
"A poesia é mais filosófica e séria do que a história, pois aquela fala principalmente do universal e a história do particular."
Só que, para Aristóteles, de poesia se entendia todos os mitos gregos, toda a memória e o conhecimento filosófico, toda a tragédia, toda a arte, em fim...
E o que seria a História em um mundo onde tudo se repete? E tudo se repete na sua visão filosófica da Grécia Antiga, o destino grego, combatido e enfrentado a todo o momento.
Ao mesmo tempo que o futuro é preciso, também é incerto porque os gregos lutavam constantemente para impedir/burlar seu próprio destino.
A vida grega se resume em recomeço. Sim, eles acreditavam em reencarnação, no entanto, sem uma perspectiva evolucionista. Complicado néh?
Então, se formos seguir o glorioso Paul Veyne, e nos perguntarmos se os gregos (que são vistos como os racionalistas, os pensadores, os bam-bam-bam da História Antiga) acreditavam em seus mitos a resposta pode ser sim: eles se utilizavam da mitologia para filosofar em cima dela, o que se parece muito com o que as pessoas de hoje em dia fazem com a bíblia, e o fato de que se estão em um ciclo e tudo que já aconteceu acontecerá novamente de outra forma, interpretar o "passado" corretamente consiste em prever o futuro.
Por isso a idéia do oráculo na Grécia Antiga: ele olha a roda da vida, do destino, da fortuna no sentido do futuro, enquanto o aedo a visualiza no sentido do passado.
Mora aí a importância do aedo, junto com a importância do mito até na Grécia clássica: a filosofia sobre o mito. A interpretação da roda.
Vide o grande matemático Pitágoras que lembrava e treinava os seus pupilos para lembrarem de suas encarnações passadas.
Logo, Aristóteles talvez não gostasse da história de Heródoto que conta o que aconteceu na roda sem uma interpretação tão filosófica quanto a história de hoje em dia.
Afinal, não é uma idéia grega olhar para o passado para prever o futuro?

Pitágoras: Voz do Saber
Píton: serpente do oráculo de Delfos, áquela que guarda o Saber.
Ágora: Voz. O espaço para debater e aprender.

Dionísio repetindo a História (em latim...)

Cronos temia que um de seus filhos o substitui-se como Godfather chefão do mundo antigo.
O que ele fez? Muito simples: engoliu seus filhos.
No entanto, seu filho caçula, Zeus, foi escondido pela mãe e criado pela avó a fim de que derrotasse o pai, assim como o próprio Cronos, o caçula dos titãs, incitado por Gaia, derrotou Urano.
Assim foi feito.
Só que na Grécia, o tempo era cosmogônico: um círculo. Tudo o que acontece já aconteceu e se repetirá. Só que de uma maneira diferente. Assim, na hierarquia divina da Grécia Antiga cujo tempo é cosmogônico, o filho caçula do novo chefão iria substituir o pai.
Zeus era então apaixonado por uma mulher, a mulher mais inteligente que já existiu, chamada (em algumas versões, Prudência) de Memória. Sabendo que tudo se repete, ele fez como o pai, para impedir a substituição, ao invés de engolir filho por filho, ele engole a mulher de uma vez muito mais prático....
No entanto, Zeus teve outros filhos na mitologia grega, e qual foi o último deles?
O culto a Dionísio, vindo do oriente, foi aceito em uma época muito mais recente em Atenas. Em um tempo em que os cultos estrangeiros estavam sendo duramente reprimidos.
O deus seria filho de uma mortal com Zeus, o último então a entrar como deus no Olimpo e o único ser filho de uma mortal com tal classificação divina.
Dionísio representa o vinho, as festas, as orgias. Tudo o que lhe acompanha com esse tom exótico oriental. Sábio, difícil de compreender e que tem um quê de perdição.
Zeus representa a ordem, os trovões.
Cronos representa as forças caóticas do universo, como o próprio tempo o é. O medo e o controle por trás disso.
Dionísio, a liberdade, o livre-arbítrio. A anarquia.
Não estaríamos, portanto, na era de Dionísio? Será que Zeus não foi páreo para seu filho caçula recém chegado do oriente?
Entre os mitos sobre esse deus, temos um que ele teria sido despedaçado pelos titãs quando Hera o atirou no Tártaro, no entanto sua mãe teria engolido seu coração e o gerado novamente.
E outro, o mais curioso ao meu ver, quando Dionísio vai até a mansão dos mortos para desafiar a morte para reaver sua mãe.
Oriente. Vinho. Mistério. Ressurreição.
Não te lembra alguém? Alguém para que o vinho é sagrado, alguém que teoricamente predomina nesse mundo onde temos orgias e perversões constantes?
É uma pena que a cultura grega não ficou tão viva hoje em dia, para colorir de grego arcaico a história que foi contada em latim.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O triângulo amoroso mais exótico da História

Esfinge. Coliseu. Exércitos. Enrolação em um tapete. O soldado mais fiel. O político mais poderoso. A mulher mais inteligente.
Cleópatra VII, Julius Caesar, Marcus Antonius se enlaçam em uma história de amor trágica e épica. nomes romanos em latim ^^
O período era de transição. O governo de Roma estava centralizado nas mãos de César depois de anos como uma República.
Os interesses de Cleópatra, segundo Pilar Rivero*, são resumidos em assegurar o poder do Egito para si e seus filhos e adquirir um maior território para o país, o único independente de Roma na época.
Para assegurar-se no poder, Cleópatra buscar uma aproximação com Roma
Intrigas e guerras entre irmãos no Egito, levam Cleópatra a uma aliança com César. O casamento é visto com maus olhos pelo povo romano, mas a popularidade e o carisma de César o seguram no poder somado com Marcus Antonius, seu fiel general, como Tribuno da Plebe.
Mas a posição de César traz a traição de Crássio e Brutus.
Com a morte do político, um novo Triunvirato se forma: Otávio, Lépido e Marcus Antonius.
Otávio no ocidente, Lépido na África e o orador do discurso fúnebre de César e seu principal general, Antonius, o Oriente.
Marco Antônio atiça o povo contra Cássio e Brutus em um discurso fúnebre a César.
Cleópatra, uma vez que Otávio quer acabar com sua vida porque seria ele o herdeiro de César sem seus filhos no caminho, decide aliar-se a Antonius. O que lhe conferia proteção na política do Oriente.
Eles se casam, e o mais fiel dos soldados de Caesar toma conta de seu patrimônio ou matrimônio no caso até o momento em que cometem suicídio após sofrerem uma derrota.
Essa derrota é da Batalha do Áccio última figura quando o Senado romano os declara inimigos do povo romano e encarrega Otávio para liquidar-los. Otávio se torna o Augusto, imperador, após dar cabo de Lépido e Antônio.
Existe uma fonte, uma carta citada por Sitônio, que informa que eles teriam se casado nos rituais egípcios enquanto Marco Antônio ainda era casado com Octávia, irmã de Otávio e sobrinha de César.
Bom, vale lembrar que um dos títulos de Caesar era: "O marido de todas mulheres e esposa de todos os homens" aí a gente pensa...
Marco Antônio foi O cara; comandou toda a parte esquerda do exército de Caesar nas campanhas germânicas; diz a lenda que levava uma vida boêmia na juventude e só entrou para o exército quando fugiu de suas dívidas por bêbida em Roma; e, por um acaso, esbarrou em uma tropa romana na Judéia.
Será que esse triângulo amoroso era mais que uma linha reta com Cleópatra no meio? Talvez tenha sido triângulo mesmo, se é que me entende...
Ninguém nunca parou para perguntar se Marco Antônio, um dos maiores militares da história (e o meu favorito) também não seria marido de Caesar?
aliás tadinho dele, essa Cleópatra aí do quadro tem corpo de homem!
Problematizar tudo, eis um dos lemas do historiador...
* : texto fonte: A política externa de Cleópatra VII Filópator, por Pilar Rivero. In: Amor, desejo e por na Antiguidade. Livro nacional que, dentro dos organizadores está Pedro Paulo Funari.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A Imagem do Zeus Humano

"Tudo que o homem já fez, um homem grego já pensou antes."
Não concordo nem discordo, só afirmo que nada foi ou é tão criativo e inovador como foi e é a mitologia grega.
Os estereótipos que formam o panteão grego são base para muitos dos personagens criados na dramaturgia, na literatura, na música, nas novelas, etc, etc, etc... A graça da vida, a roda das paixões humanas foi idealizada e representada nos deuses gregos. a primeira novela das 8 da História
Todos eles tem poderes divinos e paixões/sentimentos/desejos/vontades humanas.
E um dos mais carismáticos personagens é Zeus.
Zeus, (Ζεύς em grego antigo), é o rei dos deuses na mitologia grega.
Conseguiu se livrar do destino: ser engolido pelo titã pai Cronos como todos seus irmãos tinham sido.
Zeus teria sido criado em uma caverna de Creta. Ao alcançar a idade certa, tomou a pele da cabra que o alimentava, fez dela sua armadura (a Égide, justificando o "Zeus porta-égide" da Teogonia) e foi combater seus pai, quem derrotou.
Governou o Olimpo, lar de seus irmãos, assim como os governou.
A história de Zeus é muito conhecida e algumas contradições são visíveis devido ao fato de que várias cidades-Estado gregas queriam ligar seu passado ao nome de Zeus (como pessoas importantes cuja árvore genealógica acima da terceira geração seriam reescritas com nomes de divindades).
Mas vale focar no aspecto humano dos deuses gregos. Eles são movidos por suas paixões (vide o motivo da Íliada, a vingança de Hera e Atena) e, no caso de Zeus, sua parte humana é expressa em suas aventuras "amorosas".
A idéia de amor no mundo grego, o "amor" heterossexual, não devia ser muito popular, uma vez que a posse guerreira, o sequestro, o saque, o estupro, eram os métodos de "amor" dos guerreiros. Vide na Íliada as escravas e a briga entre Aquiles e Agamenom por causa da recém-escrava Briseida.
E o tesão masculino é suprido por estupros. Incluindo o tesão de Zeus que utiliza de várias artimanhas para conseguir "dormir" com suas cobiçadas fêmeas. Ele se transforma em cisne, águia, touro, marido, etc...
Zeus é aquele que aplica a justiça, no entanto, come sua mulher (LITERALMENTE) cujos filhos deveriam superar o pai em poder e ignora o direito monogâmico das humanas.
Aí é que está: a idéia monogâmica na Grécia Antiga. O jovens atenienses seriam estimulados a manter relações com homens mais velhos (esfregações na verdade) nos gimnásios da metrópole.
E, por causa dessas muitas aventuras sexuais de Zeus surge na mitologia um personagem que me intriga: Hera.
Hera apresenta a luta por uma monogamia que na verdade não existe para a alta sociedade, quer dizer, pelo menos não para a alta sociedade (baixou o Marx: a classe dominante).
Quase ninguém gosta da Hera tirando, talvez, a minha namorada. Ela quer ferrar o Hércules, quer ferrar as amantes de Zeus, quer ferrar os troianos. Ela ferra todo mundo. Porque Zeus, bem, "ferra" todo mundo. isso aqui é blog de família, neah?
E o ciúmes de Hera aparece como um estimulante e movimentador das encrencas e lendas da mitologia grega.
Hera é linda e poderosa, o único ser mais poderoso que ela seria seu marido e irmão, Zeus. Diferente da mulher ateniense que, em oposição a romana, ficava trancada dentro de casa.
A figura de Zeus foi relida e explorada diversas vezes em diversas formas. mas botar Zeus com armadura medieval em Clash of Titans doeu...
Sua imagem aparece até na idealização de um Deus cristão oni-potente. Afinal, não é uma influencia direta da mitologia greco-romana um Deus barbudo de cabelos brancos?
Mas a primeira imagem de Zeus, aquela cultuada na Grécia Antiga, não seria uma expressão do que todo o homem sonhava em ser? Rei de seus semelhantes, subjugando sexualmente todos os que quisesse. Impondo justiça aos subordinados e ditando a vida dos que o cercam como bem entender?
Zeus é menos que humano para os nossos dias, ele é um animal com tesão animal.
E uma discussão muito bacana sobre os mitos de Zeus aparece em Clash of Gods : ZEUS (trdução deles: "O confronto dos deuses: ZEUS"), no History Channel. Muito bacana mesmo.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

História e Memória - inscrevendo a História

Com o avanço da comunicação simbólica, é perceptível no maior esquema o ovo e a galinha uma mudança na função da memória coletiva.
O período da transmissão por inscrições é a História Antiga (Egito, Pérsia, Roma, Grécia...). Essa transmissão através da inscrição (de estelas, monumentos, um principio de escrita) vem para registrar eventos históricos. Eventos históricos, segundo Paul Veyne, seriam fatos que se destacam sobre uma uniformidade.
A memória coletiva é marcada com inscrições, provocando mudanças e registros, o que indica que a História Política e a mobilização social começaram a se complexar.
Lembra do Sennet?
Então, naquele mesmo texto do Flesh and Stone ele discute a importância da imagem no mundo romano, como a idéia do culto ao imperador, e a idéia da perpetuação de seus feitos em pedra, no comando de um império cuja riqueza se mede em carne, em numerosos escravos.
A idéia dos monumentos de Roma está ligada diretamente com personalidades, como o Fórum de Trajano, o novo Pantheon que Adriano manda erigir para provar seu valor, o desperdício de Nero em sua nova morada e a construção que marca o fim do império romano: o maior complexo de termas já feito, construído a mando de Caracala.
Le Goff foca nesse tipo de ação e não nas personalidades em si. Aliás, efeitos e causas, as inscrições, por exemplo, marcavam as comemorações e lembravam o que o Estado queria que fosse lembrado e comemorado.
O inicio da escrita, a inscrição, aparece para registrar fatos fora do cotidiano de uma civilização.
Vale ressaltar que esse tipo de documento oficial é e deve ser sempre explorada e re-explorada e talvez além de aumentar o número de tipos de fontes e incentivar historiadores a olharem com outros olhos para os vestígios do passado, é necessária uma releitura histórica dessas estelas, obeliscos, aquedutos, arenas, etc... A História é feita no presente, e muda como o próprio presente.
Um exemplo pertinente é a crença do historiador Serge Gruzinski, em A Colonização do Imaginário, de que o significado da epigrafia asteca não está apenas nas formas e seqüências que suas representação pictográficas estão dispostas e que há muito significado nas cores utilizadas, dando outro olhar a fontes já tão exploradas e mesmo assim trazendo novas informações.
E viva a História Nova!

domingo, 4 de julho de 2010

Olhar e acreditar, ver e obedecer

Flesh and Stone. Richard Sennet. (Carne e Pedra na versão brasileira)
Professor de Sociologia, iniciou seus estudos em História quando concluiu seu PhD em Harvard.
Em Flesh and Stone, ele relaciona o corpo humano no espaço urbano, mas eu só vou escrever um pouquinho sobre o capítulo em que Sennet aborda a Roma Antiga (ele não lembra o Elton John?).
Sennet expõe a importância da imagem para o povo romano. Olhar e acreditar. Ver e obedecer.(talvez não com essas palavras...).
Quando a gente vai estudar o tempo de Júlio César e o conseqüente império romano, a questão mais explorada é a importância da engenharia romana. (lembrando, Império Romano, não república)
Julius César, o marido de todas as mulheres e esposa de todos os homens, inicia o brilho de sua carreira militar quando cruza o Danúbio construindo uma ponte até então nunca vista, para cruzar o território com suas tropas, descer a porrada nos germânicos, voltar e destruir aquela magnifica construção, simbolizando que César pode fazer o que nenhum outro homem pode e faze-lo quando desejar. A ponte de César acompanha uma imagem romana de poder total.
E, depois da morte de César, Otávio empreende sua conquista pela herança e assume o título de Augusto. O império começa. (soou um pouco Darth Vader, néh?)
Ao longo dos séculos, os imperadores vão indo e vindo, e uma empreitada pela segurança no poder é expressa com tentativas de construções mais e mais magníficas. O imperador anterior é um ego fantasma que deve ser superado para se segurar no poder com o apoio do povo.
O fórum de Trajano, O Pathernon de Adriano, As termas de Caracala.
O Coliseu, erguido acima do Domus Aurea de Nero, construído a mando de seus sucessores, para que a imagem de Nero fosse esquecida pelo povo romano, mostra que a disputa engenhosa era consciente e exemplifica a idéia de Sennet.
Para que a população acreditasse naquele ser divinizado fielmente, ou para que ele tivesse o próprio ego posto a prova, os monumentos eram erguidos e fincados na vida romana. Sua memória e opinião coletivas eram drásticamente afetadas por essas imagens.
"O romano acreditaria e obedeceria o que visse."
Um exemplo filológico disso é que, segundo Paul Veyne, para os romanos, o céu noturno (que para nós é um infinito) era uma manto que cobria a terra.
Essa relação olhar e acreditar era a base da popularidade romana, e um dos maiores populistas de todos os tempos (olha, um anacronismo), Júlio César, talvez só tivesse conseguido centralizar o poder em suas mãos porque percebeu isso e conseguiu utilizar-se da engenharia para benefício próprio somando a sua capacidade diplomática e persuasiva fantásticas.

sábado, 26 de junho de 2010

Anacronismo de Homero


O que é Anacronismo?
Pelo dicionário online
Priberam: anacronismo: s. m
1. Erro cronológico.
2. Coisa a que se atribui uma época em que ela não tinha razão de ser.


Anacronismo é quando você julga, interpreta ou visualiza um fato, evento ou período histórico com os olhares de outro.
Um exemplo, quando descrevi os
daimyos do Japão medieval como lordes feudais, grandes latifundiários. Atribui termos de outras épocas para um outro tempo (uma vez que o valor semântico de daimyo não é o mesmo de lorde feudal)
No texto de
Trabulsi¹ (A mobilização política na Grécia Antiga), que é o mesmo que aborda a discussão tirano grego como um líder populista do post Demos Cratos a tiranos, ele expõe de uma maneira um pouco tímida idéia de que o aedo mais famoso de todos os tempos, Homero, (afinal se ele foi um aedo, ele só podia ser daquele tempo mesmo) não teria escrito as épicas Íliada e Odisséia fiéis às formas de governo do período contemporâneo as histórias.
O período em que Homero viveu foi, mais ou menos, VIII a. C., o início da era Clássica grega, quando a idéia de democracia era exercida em algumas cidades-Estado, e primeiramente na pólis em que ele viveu (Quios, a primeira democracia).
As epopéias se passam uns 300 anos antes, durante a civilização micênica quando a forma de governo dominante era o governo dos wanax (eis um anacronismo didático: um rei absolutista), que não fica muito bem representado na Íliada em que diversas vezes os heróis se reúnem em assembléias e o rei do exército, Agamenom, se reúne com outros reis.
Essas assembléias são realizadas em todos os níveis: monárquicos, troiano, aqueiano e divino (até Zeus reúne os deuses diversas vezes para expor sua opinião). Logo, acompanha a Íliada e a Odisséia uma idéia da necessidade do convencimento dos subalternos. Que seria uma necessidade da democracia de Quios contemporânea de Homero.
Outro fator que José Antonio Dabdab Trabulsi apresenta é a quantidade de lideranças (reis) presentes na Íliada e sobrando ainda uma galera para tentar usurpar o trono de Odisseu enquanto ele está em sua odisséia de volta. Essa quantidade enorme de lideres cria a necessidade de adjetivos para designar mais rei ou menos rei durante a Íliada em grego, fazendo um neologismo que provavelmente não foi contemporâneo às epopéias e sim, a Homero narrando-as.
Vale lembrar que as epopéias teriam sido transmitidas por via oral e aedóica por 300 anos, e sabe como é, cada conto aumenta um ponto.
Então, ou o absolutismo cretense tinha um cunho democrático e uma porrada de reis, ou os valores do tempo de Homero foram expressos nos clássicos enchendo as bases da História grega de anacronismos.

¹José Antonio Dabdab Trabulsi = formado na UFRJ, o cara já tem uns dois pós-doutorado e um currículo enorme, poliglota e que escreve muito bem! (O cara é um Funari que está atuando na UFMG)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Demos Cratos a tiranos


Quando a gente estuda política na Grécia Antiga na escola, o professor provavelmente traçou um risco no meio do quadro e explicou Atenas de um lado e Esparta do outro. O militarismo espartano e a democracia ateniense.
Mas a questão ateniense não é explicitada com o respeito que merece! Por exemplo, a democracia não começou em Atenas. Nas dezenas de cidade-Estados gregas várias formas de governo foram desenvolvidas, incluindo a democracia, de diferentes maneiras.
Em Atenas, um cidade portuária e, boa parte por isso, rica, os grandes latifundiários tinham grande poder político na forma de governo de então. Pode soar meio estranho a idéia latifundiário e porto, mas era isso mesmo: os grandes latifundiários tinham terras no campo e concentravam-se na cidade (no ginásio, na Ágora, etc...).
O tempo das tiranias na Grécia foi um momento em que a população pobre (o "estrato inferior" dos marxistas) revoltou-se e incumbiu homens com poderes ilimitados que deveriam estar de acordo com a vontade das massas.
O ditador seria o defensor do povo da aristocracia exploradora (os grandes latifundiários, os eupátrias de Atenas).
É estranho usar esse termo, não? DITADOR! O que lhe vem a cabeça? Hitler, sem dúvida, Mussolini, Stalin, talvez um Ahmadinejad no máximo. Mas raras são as pessoas que lembram dessa palavra, que agrupa uma conotação que é a representação máxima de tudo o que há de mal no mundo, com o nosso querido Vargas, "
o melhor presidente do Brasil".
E não seria Vargas essa figura povão? A política populista onde um homem confiável representa os interesses das massas contra os ricos exploradores ou comunistas comedores de criancinhas
(olha, não parece uma história austríaca alemã?).
Então um ditador seria a expressão máxima da vontade da maioria? Que vontade de responder sim, a expressão máxima de democracia é a imposição de um ditador carismático!
Mas não seria a democracia só existente em um sistema onde todos o demos (o povo) tivesse a mesma educação e a mesma capacidade crítica para que todos pudessem exercer a democracia no mesmo nível?
Então a chave da democracia de verdade é a Educação. Ela não permite manipulação e, logo, também não permite populismo. Repito: a democracia não seria possível apenas se todos tivessem a mesma capacidade de compreensão?
Para aqueles que não acreditam no socialismo porque ele é utópico, bom, eu lhes apresento a democracia.