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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O primeiro positivista

Bom, pra explicar bem explicadinho (como o Foucault faz, segundo minha mãe), acho que eu devia situar o que é o que chamamos - hoje - de Positivismo.
A história como "nós conhecemos" começou no século XIX. Na Alemanhã, Ranke começa a partir da história a formar uma identidade alemã. Para ele, nós só poderíamos entender os sentidos e o peso de uma história ao analisarmos o todo factual.
O passado estaria vivo nos documentos escritos que sobreviveram ao tempo. A "interpretação" do historiador deveria ser pragmática e concreta. Apenas o fato descrito aconteceu. Hipóteses e, principalmente, outras fontes senão os documentos oficiais não seriam permitidos. Essa "escola metódica" já caiu por terra a um bom tempo. Sua importância está no fato de ter dado origem a História Científica.

Já o Foucault (leia-se "Fu-cô") vai atingir seu auge no século XX. O que ele traz? Para Foucault tudo é uma construção. Construção no sentido de as únicas coisas inerentes aos seres humanos são suas necessidades fisiológicas (todas as três). Todo o resto pode e é apreendido dentro de uma lógica construída. Juntando história e psicanálise, Foucault vai analisar desde as maneiras de se tratar um indivíduo criminoso ao longo dos séculos, sexualidade e loucura.
Dentro da análise de textos, Foucault vai extrair as diferenças que existem entre essas lógicas de pensar de temporalidades diferentes. Foucault analisa a micro-física do poder. Quem tem poder em determinada época? O que é esse poder? Qual o discurso que permite àquele indivíduo ou grupo de indivíduos terem esse poder?
Foucault analisa discursos dentro de sua lógica. O primeiro positivista e o primeiro historiador não-anacrônico de verdade. O primeiro positivista, segundo Paul Veyne, porque ele vai analisar um discurso dentro do "discurso oficial" de determinada sociedade em determinada temporalidade. Enquanto todo mundo se esguelava berrando viva o socialismo, Foucault mostra que a história não se resume a uma luta entre classes, mas vai além disso. Nosso mundo é muito complexo para ser resumido entre mocinhos pobres versus Dracos Malfoy.

domingo, 1 de agosto de 2010

Aristóteles e a História

Aristóteles diz, na lata, que a poesia é mais filosófica e séria do que a História em seu livro Poética, capítulo nono.
"A poesia é mais filosófica e séria do que a história, pois aquela fala principalmente do universal e a história do particular."
Só que, para Aristóteles, de poesia se entendia todos os mitos gregos, toda a memória e o conhecimento filosófico, toda a tragédia, toda a arte, em fim...
E o que seria a História em um mundo onde tudo se repete? E tudo se repete na sua visão filosófica da Grécia Antiga, o destino grego, combatido e enfrentado a todo o momento.
Ao mesmo tempo que o futuro é preciso, também é incerto porque os gregos lutavam constantemente para impedir/burlar seu próprio destino.
A vida grega se resume em recomeço. Sim, eles acreditavam em reencarnação, no entanto, sem uma perspectiva evolucionista. Complicado néh?
Então, se formos seguir o glorioso Paul Veyne, e nos perguntarmos se os gregos (que são vistos como os racionalistas, os pensadores, os bam-bam-bam da História Antiga) acreditavam em seus mitos a resposta pode ser sim: eles se utilizavam da mitologia para filosofar em cima dela, o que se parece muito com o que as pessoas de hoje em dia fazem com a bíblia, e o fato de que se estão em um ciclo e tudo que já aconteceu acontecerá novamente de outra forma, interpretar o "passado" corretamente consiste em prever o futuro.
Por isso a idéia do oráculo na Grécia Antiga: ele olha a roda da vida, do destino, da fortuna no sentido do futuro, enquanto o aedo a visualiza no sentido do passado.
Mora aí a importância do aedo, junto com a importância do mito até na Grécia clássica: a filosofia sobre o mito. A interpretação da roda.
Vide o grande matemático Pitágoras que lembrava e treinava os seus pupilos para lembrarem de suas encarnações passadas.
Logo, Aristóteles talvez não gostasse da história de Heródoto que conta o que aconteceu na roda sem uma interpretação tão filosófica quanto a história de hoje em dia.
Afinal, não é uma idéia grega olhar para o passado para prever o futuro?

Pitágoras: Voz do Saber
Píton: serpente do oráculo de Delfos, áquela que guarda o Saber.
Ágora: Voz. O espaço para debater e aprender.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

História e Memória - inscrevendo a História

Com o avanço da comunicação simbólica, é perceptível no maior esquema o ovo e a galinha uma mudança na função da memória coletiva.
O período da transmissão por inscrições é a História Antiga (Egito, Pérsia, Roma, Grécia...). Essa transmissão através da inscrição (de estelas, monumentos, um principio de escrita) vem para registrar eventos históricos. Eventos históricos, segundo Paul Veyne, seriam fatos que se destacam sobre uma uniformidade.
A memória coletiva é marcada com inscrições, provocando mudanças e registros, o que indica que a História Política e a mobilização social começaram a se complexar.
Lembra do Sennet?
Então, naquele mesmo texto do Flesh and Stone ele discute a importância da imagem no mundo romano, como a idéia do culto ao imperador, e a idéia da perpetuação de seus feitos em pedra, no comando de um império cuja riqueza se mede em carne, em numerosos escravos.
A idéia dos monumentos de Roma está ligada diretamente com personalidades, como o Fórum de Trajano, o novo Pantheon que Adriano manda erigir para provar seu valor, o desperdício de Nero em sua nova morada e a construção que marca o fim do império romano: o maior complexo de termas já feito, construído a mando de Caracala.
Le Goff foca nesse tipo de ação e não nas personalidades em si. Aliás, efeitos e causas, as inscrições, por exemplo, marcavam as comemorações e lembravam o que o Estado queria que fosse lembrado e comemorado.
O inicio da escrita, a inscrição, aparece para registrar fatos fora do cotidiano de uma civilização.
Vale ressaltar que esse tipo de documento oficial é e deve ser sempre explorada e re-explorada e talvez além de aumentar o número de tipos de fontes e incentivar historiadores a olharem com outros olhos para os vestígios do passado, é necessária uma releitura histórica dessas estelas, obeliscos, aquedutos, arenas, etc... A História é feita no presente, e muda como o próprio presente.
Um exemplo pertinente é a crença do historiador Serge Gruzinski, em A Colonização do Imaginário, de que o significado da epigrafia asteca não está apenas nas formas e seqüências que suas representação pictográficas estão dispostas e que há muito significado nas cores utilizadas, dando outro olhar a fontes já tão exploradas e mesmo assim trazendo novas informações.
E viva a História Nova!

domingo, 4 de julho de 2010

Olhar e acreditar, ver e obedecer

Flesh and Stone. Richard Sennet. (Carne e Pedra na versão brasileira)
Professor de Sociologia, iniciou seus estudos em História quando concluiu seu PhD em Harvard.
Em Flesh and Stone, ele relaciona o corpo humano no espaço urbano, mas eu só vou escrever um pouquinho sobre o capítulo em que Sennet aborda a Roma Antiga (ele não lembra o Elton John?).
Sennet expõe a importância da imagem para o povo romano. Olhar e acreditar. Ver e obedecer.(talvez não com essas palavras...).
Quando a gente vai estudar o tempo de Júlio César e o conseqüente império romano, a questão mais explorada é a importância da engenharia romana. (lembrando, Império Romano, não república)
Julius César, o marido de todas as mulheres e esposa de todos os homens, inicia o brilho de sua carreira militar quando cruza o Danúbio construindo uma ponte até então nunca vista, para cruzar o território com suas tropas, descer a porrada nos germânicos, voltar e destruir aquela magnifica construção, simbolizando que César pode fazer o que nenhum outro homem pode e faze-lo quando desejar. A ponte de César acompanha uma imagem romana de poder total.
E, depois da morte de César, Otávio empreende sua conquista pela herança e assume o título de Augusto. O império começa. (soou um pouco Darth Vader, néh?)
Ao longo dos séculos, os imperadores vão indo e vindo, e uma empreitada pela segurança no poder é expressa com tentativas de construções mais e mais magníficas. O imperador anterior é um ego fantasma que deve ser superado para se segurar no poder com o apoio do povo.
O fórum de Trajano, O Pathernon de Adriano, As termas de Caracala.
O Coliseu, erguido acima do Domus Aurea de Nero, construído a mando de seus sucessores, para que a imagem de Nero fosse esquecida pelo povo romano, mostra que a disputa engenhosa era consciente e exemplifica a idéia de Sennet.
Para que a população acreditasse naquele ser divinizado fielmente, ou para que ele tivesse o próprio ego posto a prova, os monumentos eram erguidos e fincados na vida romana. Sua memória e opinião coletivas eram drásticamente afetadas por essas imagens.
"O romano acreditaria e obedeceria o que visse."
Um exemplo filológico disso é que, segundo Paul Veyne, para os romanos, o céu noturno (que para nós é um infinito) era uma manto que cobria a terra.
Essa relação olhar e acreditar era a base da popularidade romana, e um dos maiores populistas de todos os tempos (olha, um anacronismo), Júlio César, talvez só tivesse conseguido centralizar o poder em suas mãos porque percebeu isso e conseguiu utilizar-se da engenharia para benefício próprio somando a sua capacidade diplomática e persuasiva fantásticas.